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RESENHA: Os imortais, de Paulliny Tort

Foto do escritor: Giovanna Lobato
Giovanna Lobato
23 de set.
8 min de leitura
“A Mulher sabe que jamais dariam a qualquer parente, nem ao pior deles, um destino assim, porém, estrangeiros não contam. Ou contam?”
Mão tatuada segura o livro Our Imortais, de Paulliny Tort, diante de planta verde pendente e fundo claro.

Os imortais

Os imortais é uma ficção histórica sobre um grupo de neandertais, liderado por um Homem e uma Mulher, que são aconselhados pela Velha e o Velho, em busca de um local melhor para viver. Após andar durante o que parece um tempo infinito, o grupo encontra um lugar mais ou menos bom em que pode parar para descansar. Após algum tempo, descobrem que próximo dali existe uma caverna mais segura onde poderiam passar o inverno, que se aproximava rapidamente. O único problema? Ela é habitada por um bando de estrangeiros, que o narrador revela que são homo sapiens.

Do Homem, há uma vontade de dividir a caverna com o grupo, mas nenhum dos dois bandos está equipado de civilidade suficiente para chegar a tal acordo. Uma batalha consagra os neandertais vitoriosos, garantindo-lhes abrigo para os dias frios. Dos sapiens, sobram apenas uma velha, uma mulher jovem e sua bebê.

O livro é dividido em quatro partes: O Homem, A Mulher, A menina e A chegada. O narrador é onisciente (e quase um viajante no tempo) e conta a história a partir desses três personagens que dão nome às diferentes partes do livro. Algo que chama muita atenção, é o vocabulário do livro.

A Paulliny não foge de palavras difíceis ou incomuns, pelo contrário. Os imortais é um livro que acredita na extensão do vocabulário do leitor (e o primeiro livro em anos que eu preciso parar a leitura para pesquisar o significado de algumas palavras). Paulliny não recorre a hipersimplificações ou estrangeirismos, muito menos na tradução da Língua Portuguesa para o português coloquial e, ainda assim, consegue entregar ideias de forma direta e simples.

Na minha opinião, essa habilidade dela vem diretamente da sua formação jornalística. Para quem não fez faculdade de jornalismo, isso pode não ser tão óbvio, mas como é minha formação também, pude identificar essa sua capacidade forte exemplar de contar coisas complexas da forma mais simples e direta possível.

No caso do livro, o artifício que ela usa para conseguir esse resultado é justamente o vocabulário específico. Por exemplo: “Cavoucar” e “cavar” são comumente usados como sinônimos, mas passam ideias de ambientes e situações diferentes. A opção que Paulliny faz por “Cavoucar”, complementa a ambientação e ilustração da cena sem precisar recorrer a uma descrição longa que precisaria ser adicionada para alcançar o mesmo resultado, caso optasse por usar “cavar”.

Nessa mesma pegada, ela escolhe “ulular” ao invés de “uivar”/”gritar” e “espraiar” ao invés de “espalhar”. Boa parte do vocabulário do livro é composto por palavras que a maioria das pessoas não usa de forma corriqueira (tacape, zênite, porejar), mas que dão o tom da história sem gastar linhas e mais linhas (e a paciência do leitor) em descrições, além de reforçar para o leitor que ele não está em seu lugar usual. Uma escolha corretíssima, na minha opinião.

A trama é pré-histórica, mas a sensação que o livro passa é de que mudamos muito pouco enquanto seres humanos. Ela fala sobre a forma como nós, enquanto povos, enxergamos nós e os outros.

O que acontece no encontro entre grupos diferentes? Em determinada cena, fica claro que o Homem optaria por negociar com os estrangeiros para dividirem a caverna, se pudesse escolher, mas que ele sabe que nenhum dos dois grupos (como conjuntos) conseguiria conceber uma aproximação entre estranhos que não acabaria em briga. Ainda que ele tente postergar a batalha, enfrenta muita pressão do próprio bando, que não vê os estrangeiros como gente, mas como um empecilho no caminho entre eles e um abrigo mais confortável que as beiras lamacentas de um rio.

Eu confesso que ao mesmo tempo que estava muito curiosa pela premissa do livro, também estava apreensiva quanto à forma. Afinal, como se conta uma história pelos olhos de um neandertal a homo sapiens sapiens? Realisticamente, não temos como saber o que pensavam ou com que sotaque falavam, se falavam algo que sequer lembraria alguma língua moderna.

A escolha da autora foi escrever um livro inteiro sem diálogos (o que gostei, porque acho que ia desgostar demais se ela tivesse tentado criar uma linguagem para os neandertais), se valendo de descrições dosadas de cenários, situações e emoções e de onomatopeias pontuais que ajudam a dar o tom. Para conseguir essa proeza, ela se apoia na figura do narrador, que trabalha como um guia para que o leitor entenda as mentes e estruturas sociais neandertal e homo sapiens. Achei que funciona bem.

Esse artifício também permitiu que Paulliny deixasse uma coisa muito clara: nós não somos tão diferentes dos antepassados neandertais quanto gostamos de pensar. O livro não é, nem se propõe a ser, um documentário sobre a sociedade e as relações neandertais, mas mostra que, enquanto humanos, nossas emoções e instintos não mudaram tanto. A escrita e a trama equilibram bem o quão “estranho” o mundo pré-histórico parece e a familiaridade de saber que ainda é uma história sobre humanos. Nos lembra que, desde que o mundo é mundo, precisamos lidar com a morte, com gente nojenta e com as injustiças da vida, independente de isso acontecer em cidades com internet ultrarrápida ou na base de uma montanha enquanto um peixe com pernas salta da água.

Uma anotação que fiz durante a leitura foi: “nunca achei que teria tanto em comum com um bando de neandertais”. E isso pode dizer muito sobre mim, mas também diz muito sobre a história. O livro tinha a opção de mostrar os neandertais como seres menos evoluídos e completamente diferentes de nós, mas não teria a potência de universalidade que tem. Porque retiradas as facilidades modernas da tecnologia e as noções de produtividade, o nosso cerne parece ter mudado muito pouco. Nós ainda preservamos tradições aparentemente sem sentido pra manter a ordem, travamos guerras pra defender nosso bando dos Outros, que estranhamos por serem diferentes, mas que são apenas versões de nós mesmos.

Talvez por serem temas que estão mais presentes no meu dia a dia pelas notícias, os trechos que mais me chamaram atenção foram os que falam sobre os conflitos como o seguinte:

“É inevitável pensar em como são as batalhas, a estupidez à que submetem a própria vida, o descaso com a vida em si, o fracasso, porque é sempre um fracasso, mesmo quando ganham é um fracasso, uma derrocada, um esfacelamento interior, uma obscuridade com a qual ele [o Homem] preferiria não lidar, mas o clã quer, precisa da caverna e, hoje, deverá guerrear.”

É o início de um parágrafo na primeira parte do livro que me chamou muita atenção ao trazer a ideia de que talvez a nossa natureza individual não seja necessariamente violenta, mas dada a pressão do grupo, a necessidade e nossas limitações pessoais — no caso do Homem, ele não costuma/curte/consegue argumentar com o grupo —, não nos vemos com outra escolha.

Também mostra que as pessoas são cheias de contradições (e são assim até hoje), o que contribui para a sensação do livro ser tão real que beira o documentário para mim. Um exemplo é um personagem específico, que é francamente um nojento—eu, inclusive, trocaria o descritivo oficial dele por esse, mas enfim—, que ao mesmo tempo que ninguém gosta muito dele e que ele causa uma morte no bando, ele é o motivo pelo qual o grupo consegue sobreviver mais um dia, no início do livro.

No fim das contas, é a multiplicidade do ser humano que muitas vezes não conseguimos conceber. É graças ao nojento que a história não acaba na primeira parte, com o definhamento faminto do grupo. É graças à ele, e não à decisão mais lógica e correta que o Homem teria tomado, que o bando inteiro provavelmente sobreviveu mais um dia. Traz um exemplo de como a vida não é preta e branca e como as pessoas podem estar tomando as decisões lógicas, mas que ainda acabariam em extermínio, e que às vezes não tem uma opção certa ou outra errada—apenas decisões diferentes com consequências drásticas diferentes.

Além disso, essa parte me lembrou de uma questão ética antiga: vale sacrificar uma vida pra salvar várias outras ou é melhor que todos encarem prejuízos terríveis se isso significar não sacrificar nenhuma vida?

É uma discussão filosófica muito antiga, mas que faz perfeito sentido aqui. Gostei de encontrá-la no livro porque, principalmente na internet, nós tendemos muito à cair em hipersimplificações, por elas tornarem mais prático conseguir uma frase de efeito que vai chamar atenção pra um vídeo ou um título absurdo que vai atrair mais leitores. Nós somos constantemente empurrados para o simples e rápido, mesmo que essas respostas não sejam completas. E acredito que isso seja da nossa natureza, já que ninguém gosta de não entender. Existem coisas extremamente complexas e é muito difícil aceitar que talvez você nunca entenda, talvez não tenha resposta.

O livro também trata disso no momento em que o Homem e a Mulher, os líderes neandertais, adotam a criança que sobra do bando de sapiens—à contragosto do próprio grupo. A partir dessa decisão controversa, a criança se torna meio parente, meio estrangeira e cresce assim. Mas tem um detalhe: enquanto tudo está correndo bem e todos estão de barriga cheia, ninguém dá muita bola para a presença dela. Basta qualquer intercorrência e ela é a culpada, obviamente.

Mesmo que ela não tenha nada a ver com a história, no imaginário do grupo, ela é sempre culpada, porque temos essa tendência a buscar respostas simples pra coisas que a gente não entende. Na cabeça deles, eu imagino que tenha sido muito mais fácil colocar a culpa nela do que entender a mudança nos costumes migratórios dos animais ou que o acaso às vezes vai contra eles. Nós gostamos de respostas e de culpados, mesmo que sejam imaginárias ou inocentes.

Nossa necessidade latente de buscar uma forma de entender o mundo é inevitável.

Por fim, porque não quero dar (mais?) spoilers, achei o livro muito completo. Gostei do ritmo da história e—se já não ficou óbvio— da linguagem que a autora usou. Mostrou o domínio que ela tem da língua lusófona e é um livro que se um dia for traduzido para outros idiomas (e espero que seja), vai dar trabalho aos tradutores estrangeiros.

A trama é bem fechadinha. Tem um acontecimento no início que é, de certa forma, ironizado no fim. Me surpreendeu, porque faltavam poucas páginas e eu já estava em ritmo de saideira, comemorando uma reparação na história. E aí vem esse Choque (eu que tô chamando ele assim, viu) e percebemos que o destino prega peças, mesmo quando parece que tudo vai se resolver.

Ainda que eu tenha fechado o livro e ficado alguns segundos encarando o teto, gostei muito dessa cartada final, que mostra que talvez a gente não tenha evoluído tanto assim e que mesmo quem vence, perde um pouco. Afinal, todas as nossas versões são imperfeitas e sabem ser selvagens.

Para quem ainda não leu, fica a dica: preste atenção aos títulos dos capítulos, mas só os investigue depois de concluir a leitura. Se você for como eu, vai ficar com uma sensação de que tem algo ali, indo e voltando páginas para tentar decifrar, mas deixa para montar esse quebra-cabeça no final. Para mim, foi a cereja do bolo.


Sobre a autora

Paulliny Tort nasceu em Brasília (DF). É jornalista e mestre em Comunicação e Sociedade pela UnB. Estreou na literatura em 2016, com o romance Allegro ma non troppo (Oito e Meio), semifinalista do Prêmio Oceanos de Literatura. Erva brava (Fósforo), seu primeiro livro de contos, foi vencedor do prêmio da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA) e finalista do prêmio Jabuti 2022. Em 2026 publicou o romance Os imortais (Fósforo).

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